sábado, 23 de fevereiro de 2013

Saudosismo, I miss you'sismo.




"Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades em japonês, em russo, em italiano, em inglês… mas que minha saudade, por eu ter nascido no Brasil, só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota. Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria, espontaneamente quando estamos desesperados… para contar dinheiro… fazer amor… declarar sentimentos fortes… seja lá em que lugar do mundo estejamos. Eu acredito que um simples “I miss you” ou seja lá como possamos traduzir saudade em outra língua, nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha. Talvez não exprima corretamente a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas. E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra para usar todas as vezes em que sinto este aperto no peito, meio nostálgico, meio gostoso, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos. Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis! De que amamos muito o que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência…"
Clarice Lispector

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Eu + você = bons textos


As dores nos tornam mais forte, os tropeços nos ensinam por onde andar, o dinheiro compra e realiza grande parte dos nossos sonhos, os amigos são a família que escolhemos, a nossa família nos acrescenta valores. No entanto, nada é capaz de mudar aquilo que somos, por que isso é o que somos. E ele era aquilo que ele é.
Seria estupidez tentar defini-lo, pois ele possui um nome forte, dizem até que o seu nome significa: lobo. Eu não sei. Tudo que sei é que ele adora falar das nuvens, do sol, do mar, da vida...
Desde pequeno mostrou-se diferente, não é como se ele não se encaixasse com os outros, não, ele simplesmente completava o grupo de uma forma diferente. Uma forma alegre, criativa, disposta a arriscar, e sempre vendo de uma forma colorida o que o resto de nós, muitas vezes, víamos no preto e branco.
Um garoto de alguns grandes amores, de alguns pequenos romances e de algumas eternas paixões. Ah e antes que eu esqueça, ele é um garoto de grandes sonhos, muitas aventuras, e muitas loucuras também. Um garoto de música alta na caixa de som, de curtir a letra nos fones de ouvido, e de cantar sempre que possível.
Com ele aprendi que banho na piscina até tarde da noite é divertido, que nuvens podem virar anjos, que aprender dirigir pode ser com o freio de mão puxado, que estudar pode ser riscando na mesa, que tirar foto pode ser também embaixo d’água, que guarda-chuva pode ser pra enganchar na bicicleta, que calçadas podem ser para tropeçar, que taxis também dão carona, que café não pode ser misturado com cachaça, que sempre dá pra dividir a ‘merenda’, que reforço pode ser para discuti religião, que se você for pra Campina Grande a pousada é JK, que se for para tocar violão vai sair Nando Reis, e se for prova de química ou trabalho de física o melhor é suco de uva adulterado.
Não pense que somos românticos.
Não somos românticos, a questão é que temos uma enorme afinidade. Sim, temos, e essa afinidade é que: não importa qual o assunto, não importa o estado físico ou civil, mas sempre que estivermos um perto do outro iremos dialogar sobre um texto qualquer, uma poesia estranha ou o autor que escreve tal coisa.
Às vezes, falamos também sobre o que escrevemos, como vai nossas vidas, nossos amores, uma música qualquer, esse é o nosso relacionamento, a nossa amizade literária. Uma amizade literária que já enfrentou muita coisa, que já teve raiva um do outro, que já sentiu falta, mas que como um texto da Clarice ou uma poesia do Vinícius é ainda melhor quando lido novamente.
Amigos, irmãos de espirito, é o que somos e isso nos basta.
Se você também se encantou com ele, eu diria que só a um jeito de acha-lo e com toda a certeza vai ser preciso tirar os pés do chão e voar. Pois é, ele adora voar, às vezes ele voa tão alto que é preciso lembra-lo que o ar fica um tanto rarefeito e é necessário descer um pouco.  Não acredite que será possível encontra-lo aqui embaixo, não, ele se acostumou com a fantástica vista de lá de cima, ele não tem medo da altura, portanto se quiser encontra-lo é melhor pegar carona em algum voo.
                     
Se as minhas asas não foram feitas para voar, arrancar lhe eis.        Comprarei um par novo, cujo material será a coragem, e costurar lhe eis a minha alma com a liberdade. Nada me prende ao que é monótono, até mesmo se a minha liberdade perder o encanto, abandonar lhe ei, e então partirei em busca de uma nova aventura.
Obrigado por ser você.
D. Andrade - Relicário Abstrato


Foram com essas palavras que acordei nesta "ressaqueada" segunda feira. Assim que liguei o wi-fi do celular, uma mensagem apareceu no Facebook e lá estava um anexo (desta vez não tinha o amorzinho). Corri para o notebook e assim que li, parecia uma criança indo pela primeira vez ao parque de diversões.
Não tenho, sinceramente, palavras para agradecer por essas tantas outras palavras bonitas escritas para mim. Quando li no "in box" do Facebook que era um texto exclusivamente meu, jamais imaginei que seria tão exclusivo. Você já citou muito bem que somos irmãos de espirito e sou muito feliz com isso. Nossa amizade já se mostrou, por diversas vezes, proveitosa, já superamos muitas etapas difíceis (vestibular e muitas outras), já aprontamos e já aprontaram com a gente. Ás vezes, morro de saudade de ter uma "barra" para enfrentar com você. No fim, tudo virava sorrisos e noites viradas(ou noites bocejando, como queira chamar).
Não se engane, gosto mais do que você de "corrigir" seus textos (quase nunca necessitam de correção), analisar seus tantos "eu líricos" diferentes e se tornou um hobbie ir à minha analista/psicóloga particular. (observe sempre o mesmo horário da visita). Admito, também adoro o lanche. (acho que você já percebeu isso também)
Muito obrigado de verdade. Obrigado, por ser quem você é e por gostar de quem eu sou. Obrigado por sempre me mostrar textos tão bons. Te devo essa. 

Ps: acho que vou ficar "pra baixo" mais vezes, pra você me mandar mais surpresas (eu sei que você odeia essa palavra e quase fez uma monografia sobre isso em uma tarde de estudos) mais vezes e pra me chamar de amorzinho pessoalmente. hahaha 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Amizade sem trato


Dei pra me emocionar cada vez que falo dos amigos. Deve ser a idade, dizem que a gente fica mais sentimental. Mas é fato: quando penso no que tenho de mais valioso, os amigos aparecem em pé de igualdade com o resto da família. E quando ouço pessoas dizendo que amigo, mas amigo meeeesmo, a gente só tem dois ou três, empino o peito e fico até meio besta de tanto orgulho: eu tenho muito mais do que dois ou três. São uma cambada. Não é privilégio meu, qualquer pessoa poderia ter tantos assim, mas quem se dedica?
Fulano é meu amigo, Sicrana é minha amiga. É nada. São conhecidos. Gente que cumprimentamos na rua, falamos rapidamente numa festa, de repente sabemos até de uma fofoca sobre eles, mas amigos? Nem perto. Alguns até chegaram a ser, mas não são mais por absoluta falta de cuidado de ambas as partes.Amizade não é só empatia, é cultivo. Exige tempo, disposição. E o mais importante: o carinho não precisa – nem deve – vir acompanhado de um motivo. As pessoas se falam basicamente nos aniversários, no Natal ou para pedir um favor – tem que haver alguma razão prática ou festiva para fazer contato. Pois para saber a diferença entre um amigo ocasional e um amigo de verdade, basta tirar a razão de cena. Você não precisa de uma razão. Basta sentir a falta da pessoa. E, estando juntos, tratarem-se bem.Difícil exemplificar o que é tratar bem.
Se são amigos mesmo, não precisam nem falar, podem caminhar lado a lado em silêncio. Não é preciso trocar elogios constantes, podem até pegar no pé um do outro, delicadamente. Não é preciso manifestações constantes de carinho, podem dizer verdades duras, às vezes elas são necessárias. Mas há sempre algo sublime no ar entre dois amigos de verdade. Talvez respeito seja a palavra. Afeto, certamente. Cumplicidade? Mais do que cumplicidade. Sintonia?Acho que é amor. Só mesmo amando para você confiar a ele o seu próprio inferno. E para não invejarem as vitórias um do outro. Por amor, você empresta suas coisas, dá o seu tempo, é honesto nas suas respostas, cuida para não ofender, abraça causas que não são suas, entra numas roubadas, compreende alguns sumiços – mas liga quando o sumiço é exagerado. Tudo isso é amizade com trato. Se amigos assim entraram na sua vida, não deixe que sumam.
Porém, a maioria das pessoas não só deixa como contribui para que os amigos evaporem. Ignora os mecanismos de manutenção. Acha que amizade é algo que vem pronto e que é da sua natureza ser constante, sem precisar que a gente dê uma mãozinha. E aí um dia abrimos a mãozinha e não conseguimos contar nos dedos nem doisamigos pra valer. E ainda argumentamos que a solidão é um sintoma destes dias de hoje, tão emergenciais, tão individualistas. Nada disso. A solidão é apenas um sintoma do nosso descaso.
Martha Medeiros

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Rapidinha


Só estava meio vazio, querendo falar uns troços pra alguém de confiança, jogar conversa fora. Está todo mundo ficando velho e esclerosado por dentro. Os bares estão perdendo feio para as novelas, não há mais ninguém nas ruas. Não tenho me identificado muito com ninguém. Mas tudo bem. Levei um tempo até entender que pode ser muito libertador não se sentir parte de nada. E tu sabe como sou, dramatizo para dar às coisas a importância que originalmente elas não têm.
Gabito Nunes

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Considerações finais


Há pouco me peguei achando chatas essas mensagens no Facebook de cada pessoa dizendo o que fez e o que quer fazer nesse novo ano que está aí, batendo e já com a mão no trinco para entrar na nossa casa. Li algumas, ri de outras, mas foi aí que descobri que isso é o que mais queremos nos seres humanos e é esse o segredo: construir coisas realmente grandes, porém, dentro de nós. Já fiz um texto para esse mesmo blog há algum tempo atrás sobre o que eu acho dessa data inventada, sobre como não 'muda nada', mas 'muda tudo'.
Nesse embalo, comecei a rememorar o que eu fiz nesse ano, que teve um gostinho de viver sonhos. Lembrei tantos momentos difíceis, lembrei de que, nesses momentos delicados, eu estava feliz por estar onde estava e que todas aquelas coisas que eu estava passando eu já sabia que iria passar e, ainda mais, eu desejei passar por elas. Eu literalmente abri minhas asas e voei alto e bem mais do que muitos poderiam imaginar, eu abocanhei a vida sedento por vivê-la. Foi o ano que saí da casa dos meus pais, que passei a morar 'só', foi o ano que vivi o sonho que passei o ano passado inteiro para realizar, foi o ano que conheci pessoas incríveis por dentro e por fora, foi o ano que me afastei de pessoas que nunca pensei em me afastar. Digo-lhes, também, que o sonho não era tão doce quanto eu achava, mas é bem melhor.
Foi o ano que eu reafirmei minhas teorias, reconstruí meus conceitos, reanalisei pessoas e tive a plena certeza do que eu quero para minha vida. Ah... só tenho a agradecer enormemente por tudo. Poucas são as pessoas que podem viver o que eu vivo e menos ainda são aquelas que têm a coragem de viver e fui lá e fiz. Li em um desses famosos livros de auto ajuda, certa vez, que o amor e a gratidão são os melhores sentimentos que se pode ter, que atraem outros e tal... Esse negócio de atrair pode até não ser verdade, mas que esses sentimentos colocam uns óculos escuros na gente e torna a vida muito mais bonita, isso é verdade.  Enfim, deixei para escrever o texto de ultima hora e mil intermitências apareceram enquanto eu o escrevia, acabou que o texto se esvaiu pela minhas mãos. Porém, quero deixar registrado aqui toda a minha gratidão por tudo e a esperança de que tempos bons continuarão a vir sempre. Que você, leitor, tenha um ano maravilhoso, mas que não espere que tempos diferentes venham se você continuar igual. Construa grandes planos dentro de você e transforme-os em realidade. Emane para os outros tudo aquilo de bom que você quer para você. Que venha saúde, sempre. Até 2013, espero que com muitas outras postagens.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Amor não são dois, é um.



Foi aí que um dia um sorriu para o outro e naqueles sorrisos estavam subentendidos mil verbos e mil ações. Os sorrisos cada vez ficaram mais intensos e os olhos faiscavam ao se encontrarem no mesmo momento daqueles mansos sorrisos. Era paixão, não havia como negar. Sorriram cada vez mais perto um do outro, iam, iam, até que um dia, quando ambas as partes subconscientemente já sabiam que os meros sorrisos eram mais que meros sorrisos, decidiram somar os sorrisos de ambos e formar uma felicidade ainda maior. Coisa de colegial. Ela, carente e cheia de amores românticos baseados naqueles mais torrenciais de Álvares de Azevedo para dar. Ele, aquele misto de erupção sentimental e sexual típicos da adolescência masculina. Passaram a somar os sorrisos cada vez mais, e mais, e mais. A somação de sorrisos, que deixavam de ser sorrisos quando se somavam, porém ficavam mais intensos (sabe lá que tipo de equação matemática que poderia explicar isso), acabou culminando naquela obsoleta prática do namoro.
Diz-se que as maiores felicidades não custam caro e é verdade. Quando estavam juntos era como se o mundo girasse lento, como se todas aquelas tantas leis físicas e químicas que teoricamente regem os corpos e o universo se esvaíssem. Até que, de tanto somarem sorrisos, eufemisticamente falando, tiveram que cruzar a sobrenatural virada de ano terráquea... aquela que é comemorada com objetos luminosos, e de forma estranha, para saudar caridosamente os novos momentos daquela nova girada da terra em volta do sol e que não muda nada, mas muda tudo.
Ela, sempre tão presa às vontades da sua mãe, que queria levar ela para a mais distante localidade daquela em que ele morava. Ele, tão preso às tradições, por nada trocava a tradicional virada de ano com toda a sua comodidade. Incompatibilidade, versus, contra, não deu certo. Um queria levar o outro para si mesmo e se muito tentassem e não se rendessem acabariam não levando ninguém para canto nenhum e passariam essa tão mágica, sobrenatural e inventada data desacoplados, sós, desconectados, com uma parte de cada um faltando.
Foi aí que faltando duas inventadas horas para a terra começar uma nova volta em torno do sol ele decidiu pegar sua motocicleta velha e barulhenta e ir buscar ela, de mansinho, para cruzarem essa misteriosa e energética barreira geográfica juntos. Destemidamente saiu, apenas com rumo e coragem, com a finalidade de achá-la, onde quer que estivesse. Ela, assim como a terra gira em torno do sol, girava no microcosmo em torno das vontades da mãe e estava lá, presa, restrita, coleirada. Foi aí que depois de uma hora no vento frio e na escuridão, guiada pelo farol da moto, ele chegou onde ela estava. Ela, com sorrisos tão belos quantos aqueles que foram cruciais para o início de tudo, o recebeu com uma cara de quem o achava louco, e ele o era.
Fez a indecente proposta baixinho, para que o sol que regia ela não ouvisse e impedisse o maquiavélico plano. De início ela negou, de final também. Acabou que no meio de tudo ela achou que seria indescritível e essa vontade do meio se sobrepôs à vontade final e acabou aceitando.
Sem desculpas, sem razão, montou na moto dele, juntou seu coração às costas dele e seguiram, por alguns minutos, sem direção, apenas seguiram. Ela o apertava, como se aquilo aliviasse todo o seu medo, esvaísse sua tensão. Ele, sentindo a respiração dela bem próxima à sua nuca, apenas guiava aquele veículo que na verdade era guiado pelo amor deles. Seguiram por quarenta minutos em uma escuridão que era iluminada apenas pelo ritmo rápido dentro deles e pela fraca luz da motocicleta. Cruzaram juntos, bem juntos mesmo, a ponte que ligava um lado da cidade ao outro. Subiram um íngreme ladeira que se elevava cerca de 50 metros acima da cidade e dobraram à direita. Subiram outra ladeira em cima da ladeira e, por fim, ele decidiu parar a moto.
Era uma escuridão absurda. Na beirada de um alto barranco que fora formado pela passagem do grande rio primitivo e que agora, como o rio era apenas um fio de água, era apenas um barranco, para alguns, um abismo. De lá, se tinha uma vista ampla de toda a cidade. Tinha pouca de iluminação, mas ele via os olhos arregalados dela como se perguntassem, "estamos fazendo isso mesmo"? Sem responder com palavras, ele apenas segurou a mão dela e a trouxe para mais próximo do seu corpo.
Minutos depois, diante da escuridão que era iluminada apenas pelos resquícios de luzes da cidade, como se fossem vagalumes de tons avermelhados e azulados, estavam eles e os primeiros fogos começaram a subir. Pequenos inicialmente, culminando com aquela explosão irradiante no céu, criando estrela onde não existia e alimentando sonhos com aquelas faíscas alucinógenas. As mãos deles estavam bem juntas, unidas, um susto súbito tomou os dois, quando aquele pontinho virou uma grande esfera de luzes bem no meio da cidade. Parecia mágica, os corações de ambos acelerados. Ele sentado na moto e ela escorada nele. Parecia que aquela união epidérmica unia os dois além de fisicamente, era como se todo aquele sistema cardiovascular fosse não dois, mas apenas um. Estranhamente, os corações de ambos começaram a pulsar no mesmo ritmo. Era como se aquele contato transformasse eles em um só... E é isso que o amor é em essência: amor não são dois, é um. A cada nova explosão no céu, ele a apertava como se aquela união fosse ficando cada vez maior. De súbito, a terra parou de girar em torno do sol e o sol passou a ser eles... tudo ao lado deles estava em câmera lenta, apenas eles, com corações pulsando rápidos, estavam na velocidade normal com que as coisas acontecem. Definitivamente agora eles eram o sol e todas as outras coisas giravam em torno deles. De súbito ela se virou, deixou para trás aquelas esferas de todas as cores que surgiam no céu e encostou o seu sorriso no dele. Não há como se explicar, não há lei ou teoria que se aplique ao que ocorre quando deixamos de ser dois e passamos a ser um.
Foi de súbito, foi no involuntário e aos poucos as peças de roupa deixaram de cobrir a pele e passaram a se acumular no chão daquele ambiente. Ela, tão cheia de pudor, se despiu como se ele fosse ela e, por isso, não havia estranhamento. Ele, que agora também era ela, também se despiu e deixou à mostra para o gélido vento toda a sua pele. Transcendental, involuntário, automático. Agora estavam os dois, despidos de qualquer amarra social, despidos deles e vestidos de ambos, juntos, unidos por forças que sabe lá de onde vinham, mas que os tornavam um corpo só. Por fim, quando as esferas brilhantes pararam de surgir por sobre a cidade e quando a respiração deles passou a ser uma só, untada por movimentos involuntários de ambos, eles alcançaram o máximo de céu que se pode chegar com os pés na terra e juntos, mais uma vez, romperam a barreira do entendível, do palpável, do concreto e mais do que nunca, regados por um gozo animalesco fizeram um casamento sem precisar de alianças, uniram-se através do tempo e do destino. Por fim, eram apenas um e agora sabiam que, ao contrário de que se diz, um é infinitamente melhor que dois. Ficaram abraçados, juntos fisicamente como uma metáfora para aqueles psíquicos que já era tão juntos e sentiram no corpo de ambos, aquele suor que emergia naquele ambiente inóspito, escuro e frio.
Agora, mais do que tudo, despidos de roupas e vestidos um do outro, puderam encontrar o amor como o fenômeno sobrenatural que realmente é, desatrelado desse protótipo inventado e midiático que divulgam por aí. Não há destino que se contraponha, eles eram um feito de dois.