sábado, 31 de agosto de 2013

O Sábado do Cícero


Este sábado, dia 31 de agosto, foi um dia que finalizou a longa espera de um público que aprecia composições minimalistas e com palavras excessivamente carregadas de significados: foi lançado oficialmente o segundo CD do cantor Cícero.
Para fãs que, assim como eu, o acompanham desde o seu primeiro registro, intitulado Canções de Apartamento (e que já foi citado em algum post desse blog) este sábado foi de espera. No entanto, ao apreciar o produto motivo da nossa expectativa, percebemos que qualquer tempo que esperássemos por isso, ainda estaria dentro dos limites, pois a obra é de um primor esplêndido e é digna de fazer qualquer um aguardar.
O próprio Cícero citou por aí que a sonoridade do disco remete àquele horário no fim da tarde em que tudo fica em paz, nem escuro, nem claro, nem quente, nem frio (eu, particularmente sou apreciador nato desse momento). Como ele mesmo afirmou, este momento dúbio é uma metáfora sobre sua personalidade e as músicas desse disco são um pouco disso.
De fato, ao se ouvir as canções, não tem como não lembrar de uma tardinha qualquer por aí, na beira da praia ou não, quando o sol de maduro já caiu e a lua com preguiça ainda não apareceu e quase tudo que tinha para acontecer naquele dia já aconteceu. Uma estranha onda de calmaria preenche o céu juntamente com um degradê lindo que parece aflorar nosso sentimentalismo e trazer à tona as angústias, medos e expectativas que somos nós. Geralmente essa é a hora que temos tempo de ser nós mesmos, quando não necessitamos de incorporar nosso personagem do trabalho ou das nossas outras obrigações diárias. E, sem dúvida, a cada verso dessa obra, nos achamos e vemos surgir dentro de nós, a partir dos nossos ouvidos, toda a sensibilidade capaz de sentir tudo aquilo que não percebemos que sentimos, mas que em meio a palavras, dedilhados de violão e uma percussão primorosa podem ser encontrados.
Parece, aparentemente ser um disco mais 'limpo', com uma sonoridade mais centrada em dedilhados, sem grandes emoções, no entanto, isto é algo completamente subjetivo e vai da capacidade de cada atento - ou não- ouvinte de sentir.
O que acontece, na verdade, é que este é um disco repleto de pequenas chaves e fechaduras que só com o escutar, ao longo do tempo, vamos descobrindo, abrindo novas portas e conhecendo novos territórios aonde nem imaginávamos que existiam. Nisto, este disco completamente se assemelha com seu antecessor - Canções de Apartamento- , onde a cada nova escutada, dependendo da frequência sentimental do ouvinte, um novo som é equalizado, um novo antigo verso faz sentido e um vocal surge trazendo uma alforria para nossas brigas internas. Esta é uma das partes mais incríveis de se escutar Cícero: o disco é sintonizado de acordo com nossa frequência sentimental.
Abstrações extremamente casuais e momentâneas parecem ter sido captadas em câmera lenta e traduzidas em música e este é, talvez, o motivo de causar o sentimento de "preferia o CD anterior" que observei nas palavras dos fãs, nas redes sociais. Diferentemente das músicas do primeiro registro, em que ele canta versos mais digestíveis a primeira escutada, este traz versos menores, compassos mais curtos, trocadilhos mais subjetivos e uma obra, consequente, com um nível mais elevado para ser degustada.
A incrível faixa Ela e a Lata, por exemplo, parece ter sido exacerbadamente pensada e do título ao ritmo - semelhante ao do veterano da MPB Gilberto Gil - transcreve uma poesia medonha que só é mostrada ao ouvinte capaz de ouvi-la. São tantos elementos que compõem a mensagem que o Cícero quer passar, que até a sonoridade com um tropismo para o lado do Gilberto Gil, traduz a cara social desta canção.
Não se enganem, tudo foi pensado.
 Ao utilizar de versos como "à burulhar, ela / as perna magr'Ela, / vida amar'Ela / ô vida má.../ Vou sair pra passear...", transgredimos em poucos minutos através da cena de um observador - o eu lírico - vendo uma provável catadora de latas.
 Durante a canção, ele analisa todo seu aspecto mórbido ( como visto no verso "as pernA magr'Ela" - até o cuidado de tirar o S da primeira palavra foi tomado para traduzir o vocabulário daquele ser esfarrapado a ser observado, refletindo a classe social extremamente renegada a que ela se encontra), conclui que a vida "a ama" para não leva-la dessa efêmera existência de vez ( como pode ser observado no verso "a vida amar'Ela"), na sequência temos o trecho "ô vida má..." que remete ao quanto a vida pode ser má com algumas pessoas (nesse momento, podemos presumir que o eu lírico se sente mal por presenciar aquele estado desumano), no entanto, após mais alguns segundos de melodia o verso "Vou sair para passear" com tom despreocupado é disparado pelo eu lírico e a grande jogada dessa música talvez está nesse minúsculo verso que traduz o egoísmo humano (o expectador foi capaz de observar a condição subumana a que o outro - a catadora - se encontrava, se sentiu mal, mas preferiu sair para passear e esquecer daquilo à fazer algo para mudar a realidade dela).
São chaves e fechaduras assim, que quando encaixadas, mostram a nós o nível elevadíssimo de composição a que Cícero chegou e que enche o nosso Sábado.
A abstrata faixa Asa Delta nos mostra uma espécie de poesia musicada - poesia esta que no encarte adquire forma de asa delta, realmente- e é formada por uma abstração tão íntima e tão metafórica para a existência, que só os ouvidos mais atentos serão capazes de captar o silêncio inicial da faixa sendo irrompido por um barulho mais urbano como um pouso de um voou de Asa Delta. É uma faixa repleta de minúcias que literalmente sai do mundo da música para o céu nas ultimas palavras cantadas: "Eu voo..."
A canção Fuga Nº4 nos mostra uma divagação sobre o mundo e as verdades ou ausência delas. A poesia se torna palpável no verso "O destino, o tempo inteiro envergando a verdade" em que no encarte está realmente como se fosse um sólido envergado, sendo o verso "A verdade dorme cedo" a base que sustenta todo esse envergamento. Você tire suas próprias conclusões, a partir disto.
Não só as poesias abstratas merecem destaque nesta obra. A sonoridade também, uma das marcas do Cícero, é bem ímpar. Na faixa Frevo Por Acaso, por exemplo, palmas foram sabiamente encaixadas e se tornam uma percussão incrível. Na faixa Para Animar o Bar, um ritmo mais alegre - remetente aos Los hermanos - se faz som e acaricia o ouvido do expectador.
Além disso, sábias utilizações das palavras podem ser encontradas por toda a obra - característica essa que, na minha opinião deixa a obra mais rica e rompe os limites entre quem escuta e quem compôs. A doce canção Por Botafogo, por exemplo, tem um verso bem notório: "Mas se o tempo der, posso avarandar seu tédio..." que remete às características agradáveis e livres das varandas 'avarandando' o tédio e tornando este mais feliz e suportável.
Definitivamente, a áurea mágica e misteriosa do fim da tarde de um sábado - imagem sinestésica que compõe a própria capa do CD- foi transcrita em música e isso torna-se mais perceptível ainda ao se degustar essa mantra neste horário, com um espirito livre e ameno. Recomendo... Terapia melhor, não há.
São por estes e muitos outros incríveis detalhes que concluímos de vez que esta é uma obra, no mínimo primorosa e meticulosamente montada para o ouvinte.
Sabiamente, Cícero soube combinar diversos elementos com versos curtos - extremamente carregado de sentidos - resultando em algo mais maduro e "pé no chão" que seu disco anterior, no entanto, que exigem uma maior capacidade e sensibilidade por partes dos ouvintes.
Quase que com certeza, Cícero vai continuar a estrelar a lista das principais promessas da Música Brasileira e, se souber usar ainda mais do seu incrível talento, vai continuar a nos presentar com outros discos tão mágicos e minimalistas quanto esses dois primeiros. Admito que torço muito por isso.
Outra coisa bastante legal e bem característica dele, é a disponibilização GRATUITA do seu trabalho para download. Se você não conhece ou não tem um desses dois CD's dele, basta entrar no site www.cicero.net.br e se deliciar com essa música que acalma a alma.

domingo, 21 de julho de 2013

O doce após o salgado


Não quero que meu casamento seja um mero acidente capitalista ou, quem sabe, consequência de atitudes  de jovens outrora apaixonados. Não quero ter que sobreviver 20 anos com alguém por consideração a 3  anos iniciais que foram realmente vividos. Não quero que ninguém me deva ações por eu cumprir minhas obrigações.
Porque amor é pêndulo, tic-tac do relógio, balança de bandejas que desregula. Muitos (sobre)vivemos achando que amor é digno de extremos. Amamos catastroficamente, odiamos subitamente.  Amamos catastroficamente, odiamos subitamente. E vamos nesse pêndulo; uma alternância cordial que põe em xeque aquilo que o ser humano mais teme: a solidão.
Porque se tem uma coisa que nós amamos é a contra-sensação. Amamos um salgado após o doce massivo, salivamos diante de um sabor açucarado após um paladar amargo, amamos um amor torrencial após um ódio tempestadiano.
Pare e pense se você não conhece um caso semelhante a este: o carinha está largado em relação ao relacionamento. Ela, chateada, decide "dar um gelo" nele. Não liga, não fala, não dá atenção. Resultado? O cara fica só, sente um puta ódio e depois, percebe que a ausência dela grita. Quase como uma vingança contra si mesmo, dá a ela uma dose sobrecarregada de amor, após o ódio. Vice-versa. Ela largada, ele "dá um gelo", ela o ama intensamente. É bem aí que se faz prática a teoria do doce após o salgado.
Retroceda e lembre o dia em que o almoço tinha tanto sal, que você aguardava ansiosamente pela sobremesa doce. Por fim, quando esta veio e você saboreou-a, entrou em um êxtase. Admita, essa quebra de sensações é um deleite! O amor estraçalhando o sabor do ódio é um orgasmo indescritível também, devo dizer.
O problema disso tudo está em o amor (metaforicamente, nosso doce) passar a ser mais a sobremesa da relação do que o prato principal, e aí passamos longos períodos ressecando nossos lábios com sal ao invés de nos lambuzarmos com açúcar. Seguimos por longos períodos nos enganando e engando o outro, tendo que aturar momentos de ódio para termos uma pontinha de amor vulcânico. Inteligente mesmo é quem engana a si mesmo para ter o que quer.
O outro problema disso tudo está na exaustão. Sim, esse é um dos poucos casos em que a repetição leva à exaustão, mas não à perfeição. Com o passar do tempo, principalmente nas relações mais duradouras, como os intervalos de salgado tornam-se mais amplos e constantes, o prazer adocicado torna-se cada vez menor e com menos emoção. Além disso, muitas vezes um amargo desesperador substitui o salgado, como isca pelo doce. Seguimos nesse pêndulo até que a exaustão tira o sentido da existência do pêndulo. Nossas relações passam a ser um mero acidente de quando nossa enganação particular funcionava ou de quando nem existia pêndulo e já vivíamos no melhor dos extremos da história. E aí, passamos longos anos tendo que sentir um gosto amargo como fél, dividido em muitas suaves prestações, como consequência da nossa enganação sobre o amor. Você decide.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

L'appel du vide

Tudo que exige ineditismo de mim, me cansa. Não me venha com roteiros, manuais de instruções, passo a passo. Não gosto de felicidade ensaiada, aliás, esta, pra mim, nem é felicidade, é teatro. Não gosto de nada que é pedido, não gosto de nada exigido. Nada que seja meticulosamente programado. Odeio tudo que me generalize, que me faça ser a mesma coisa por muito tempo. Odeio rotina, odeio tabelas retas e formas que fazem tudo sempre do mesmo jeito. A graça da vida é esse errado deliciosamente acertado, é esse belo bater de asas torto das borboletas. É o decadente atraente. É o gauche de Drummond. Porque tudo que é bonito, é feio ao ponto de causar uma estranheza bela e tornar-se bonito. 
A graça da vida é esse rabisco feito sem régua que entortou a ponto de você ter que inventar um novo desenho em cima dele para encobrir e, no final das contas, ficar melhor do que o traço inicial ensaiadamente reto. A graça da vida é a transitoriedade, os picos, as curvas sigmoides do gráfico seguidas de estonteantes depressões e de picos estratosféricos.
Odeio tudo que faz ser o eu que sempre fui. Odeio ter que justificar sempre o que eu odeio. Detesto padrões. Detesto atitudes "protótipo". Eu gosto daquilo que é, para mim, um campo em que o m'EU pássaro possa dar voos cortantes e rasantes profundos, com as asas abertas ao máximo, sem medo de esbarrar em grandes de gaiolas. Talvez seja por isso que a estranheza bela de abismos me atraem, "um vazio antitético cheio de coisas".
Talvez, no final de tudo, eu só leve a vida a sério demais. Só viva tanto tudo que esqueço de viver. Talvez só  passe pela estrada sem ter a ousadia de diminuir a velocidade e admirar a paisagem. Talvez todos os meus ideais de liberdade, de vida, de voos e felicidade sejam só utopias particulares que me afagam e deixam a vida insalubre mais utopicamente sobrevivível. Talvez só cedo amigavelmente porque a minha maior vontade é contrariar grotescamente. Talvez só tenham o meu silêncio aqueles que são dignos a receber meus maiores gritos. É porque sou assim mesmo, randomizado, estatisticamente improvável. Ou tão provável que contrario toda a probabilidade improvável dos outros. Sou uma abulia crônica.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Tecnologia de ponta


Sou fanático por tecnologia, admito. Sou desses que adoram micromáquinas que te apresentam uma gama de utilidades que nem eram imagináveis pouco tempo atrás, qualquer nova engenhoca que nos faça experimentar novas impressões ou, quem sabe, aquelas que consigam tirar de mim um "era só o que faltava  mesmo!". Sou fã.
Aí agora (já não tão agora assim) chegam essas telas que ou nos arrastam para dentro delas ou expulsam o que contém para cima da gente, coisa de doido mesmo.
Imagino, de vez em quando, o que meu avô acharia disso tudo. 
Devaneio à parte, que baita tecnologia! Bastam duas lentes, uma tela com um colorido bizarro e ta-ram! (leia-se com aquele tom clichê de passes de mágica de desenhos animados) Alice e Wonderland inteira se fazem ao nosso lado, fagulhas passam raspando e tiros (poxa vida, esses são de matar) vêm em nossa direção. 
Vez por outra aparecem aqueles 'especialistas' na TV ou em revistas com aquelas frases sensacionalistas do tipo: "Adeus cinema antigo" ou "3D, a nova era da imagem". E há quem diga, em letras garrafais, que esse obsoleto 2D (sim, esse tipo de imagem que eu e a maioria dos brasileiros ainda têm em casa) esteja com os dias contados.
Pois bem, após minhas primeiras experiências com esse contato mais aprofundado com as telas, um dia desses, passei a observar que a gente vê, naturalmente, as coisas meio 2D mesmo. 
Foi quando eu olhei através da janela do meu quarto e tentei enxergar o prédio mais longe que a minha visão astigmática me permitia que eu percebi que a gente vê as coisas meio planas, meio como se estivessem unidas formando aquela imagem final, quase como se fossem parte de uma tela de pintura onde, apesar de respeitar a dimensão e distância entre aquilo mais próximo e mais distante, não passa de uma mera ilusão em um plano. Era como se prédio e céu fossem uma coisa só, apesar de não serem.
Às nuvens se aplica a mesma teoria. Vemos elas sempre meio planas, apesar de possuírem diferentes tons que tentam evidenciar seus contornos. Sempre ficava meio encabulado, ainda na minha infância, quando eu ficava de cabeça para baixo e observava o céu. Sempre que assim fazia, era como se novas nuvens surgissem e eu pudesse ver com detalhes do menor ao maior volume que elas apresentavam. Aquele céu comum e plano se apresentava enorme, com nuvens algodoadas corpulentas, me mostrando o quanto é imenso e infinito.
Lembrei que, certa vez, no alto de uma montanha, deitei sobre uma pedra e deixei minha cabeça meio que para fora dela, conseguindo ver o chão do abismo como céu e o céu como chão. Foram os óculos 3D mais baratos e mais incríveis que já pude colocar um dia! E teve, também, aquele dia de longa viagem em que olhando pela janela do carro e depois de muito tentar, a nuvem se fez tridimensional para mim, pomposa e encantadora.
Saindo das paisagens e nos voltando para esses seres que sorriem, choram e têm um coração que pulsa; Por que conseguimos enxergar as pessoas tão bidimensionalmente quando, na verdade, elas são multifaces tridimensionais? 
Se pararmos para pensar, o que falta mesmo, na grade maioria das pessoas, é saber ter sessões de vivências em 3D. Hoje em dia somos muito 2D, muito acostumados a ver aquilo que vemos sempre, aquele plano onde na verdade existem vários relevos, naquele tempo curto que temos sempre, com aqueles sorrisos econômicos de sempre e aquela empatia insolente de sempre. Falta contato, aproximação, falta sairmos de dentro das nossas telas e jorrarmos em direção a quem amamos. Faltam óculos 3D para vermos o jorro de quem já se faz tridimensional para nós. Falta vontade o suficiente para superar a dor de cabeça após a sessão porque valeu a pena êh êh.
Porque tecnologia de ponta mesmo é armar a visão contra o assalto da normalidade. Experimentem. É incrível, melhor e mais barato que óculos 3D!

terça-feira, 7 de maio de 2013

Bares e Casamentos

Em Londres um pub está fazendo sucesso porque instalou para seus clientes uma cabine telefônica com uma sonorização peculiar: enquanto a pessoa fala no telefone, pode acessar o som de uma tranqueira no trânsito, com muito buzinaço. Ou pode acessar o som de um ambiente de escritório. Toda essa parafernália é para que quem esteja do outro lado da linha não identifique o som do bar. Assim o bebum pode dar uma desculpa esfarrapada e chegar em casa sem levar uma descompostura, afinal, estava trabalhando até tarde, o coitado, e ainda por cima ficou preso num engarrafamento depois. 
Essa cabine telefônica com efeitos especiais só vem demonstrar que os bares andam muito moderninhos, mas os casamentos continuam parados no tempo, mesmo na vanguardista Inglaterra. "Só vou se você for" segue na moda. Enquanto isso a hipocrisia deita e rola. 
Muitas pessoas ainda têm uma idéia convencional do casamento: encaminham-se para o altar como quem encaminha-se para o supermercado em busca de um produto pronto, industrializado, com um rótulo dando as instruções de como utilizá-lo, e parece que a primeira instrução é: nenhum dos dois têm o direito de se divertir sozinho ou com os amigos, a menos que o cônjuge esteja junto. Não é de estranhar que os prazos de validade do amor andem cada vez mais curtos.
Não há paixão que resista ao grude. Não há paciência que resista à patrulha. Não há grande amor que prescinda de outras amizades. Sair sozinho para beber com os amigos deveria ser um dos 10 mandamentos para uma união estável, valendo para ambos os sexos. Quem não gosta de bar pode substituir por futebol, cinema, shows, sinuca, saraus ou o que o Caderno de Cultura sugerir. E não perca tempo lamentando por aquele que vai ficar em casa. Provavelmente ele vai se divertir tanto quanto. Ouvir música, ver televisão, ler livros, abrir um vinho, tomar um banho de duas horas, navegar na internet, dormir cedinho, tudo isso também é um programaço. Quem não sabe ficar sozinho não pode casar, sob pena de transformar o matrimônio num presídio para dois. 
Tem muita coisa em Londres que eu gostaria de ter aqui: parques mais bem cuidados, mais livrarias, mais respeito à individualidade, melhor transporte público, prédios mais charmosos. Só dispensaria o clima e esse pub pra lá de vitoriano, onde pessoas adultas são incentivadas a inventar um álibi para justificar um atraso. Atraso é ter que mentir para que o outro não perceba que você está feliz. 

Martha Medeiros
25 de fevereiro de 2002

terça-feira, 30 de abril de 2013

Fragmento de algo maior que nunca existiu



... Um vento frio emanava e balançava as vestes daquelas pessoas. Estavam há milhas de altura, em cima de uma das mais altas montanhas daquele vale, em uma parte em que apenas uma pedra branca e nua se exibia para o belo fim de tarde. O verde monocromático e hiperbólico das montanhas e abismo vizinhos era pastoso e rodeava eles por todos os lados. Era um daqueles momentos em que o sol está ali, mas que por algum motivo geográfico não incidia diretamente neles, apenas iluminava-os de uma forma que criava uma aura mágica e sombria.
Cath se sentia estranhamente vazia ao transbordar de emoções.
Math mantinha-se ali, com o corpo curvado, o joelho quase encostando no queixo, acocorado, fitando o vazio, calado como se nunca tivesse pronunciado uma única palavra na vida. Estava quase que de costas para Cath, fitando aquele vácuo quilométrico com o abismo o preenchendo.
Mantinham-se...
Conversavam no silêncio, por minutos e minutos.
O sol havia baixado mais alguns milímetros no horizonte e a ausência de luz parecia dar lugar a uma frio que adentrava na entranha daqueles seres. O mundo estava envolto em um laranja esverdeado alucinógeno.
Era curiosa a sensação de diálogo mesmo sem palavras verbais ou corporais.
Era uma conversa abstrata de almas.
Os pelos de Cath se eriçavam a cado tufo de vento que penetrava nos seus vestes. Não sentia pressa. Não sentia pressa nenhuma. Era como se tivesse morrido continuando a viver. Não havia mais aquele sentimento de urgência iminente típico dos humanos. Tudo transcorria como se ela tivesse mais mil anos de uma confortável vida pela frente.
Math mantinha-se mais enigmático ainda, estático, efervescente. Consentia e acompanhava a silenciosa conversa enquanto seus cabelos esvoaçavam na beirada daquele monocromático abismo.
Sentou-se, por fim, sobre a gélida pedra nua. Deitou-se e sobre suas oculares via-se apenas a luz violeta azulada do céu com alguns cirros cinza enegrecidos, mais nada. Um cobertor de céu o aninhava. A baixa temperatura da pedra o fez sentir um calafrio na espinha.
Cath quebrou, por fim, o silêncio:
- Somos isso...
Passaram-se alguns minutos e Math, sentado novamente, imerso em pensamentos, indagou:
- O que, Cath?
- Esse vazio cheio de coisas...
-Somos...
Mas Math falou como quem fala pensando em algo completamente diferente...
Mais alguns minutos de vento gélido e verde alaranjado transcorreram...
Cath sibilou de uma forma séria e profunda:
- Ficamos nisso, então?
Math manteve-se calado. Respondeu através de uma profunda inspirada e do voltar da direção do olhar do abismo para os pés. Respondeu sem dizer uma palavra sequer.
Cath tinha os olhos cheios de lágrimas frias que estavam ali como um liquor que saia de sua alma sem muito alarde.
Ela odiava essa mania de amar nele o que ela mais odeia. O mesmo motivo do início é o mesmo motivo do fim. Havia uma conflito entre entradas e saídas, início e fim, progressivo e retrógrado. Havia um conflito.
Math fitando aquele abismo com olhos vazios falou:
- Que bobeira, Cath. A vida nem é isso, a gente é quem inventa...
E inventa mesmo. Ele era inventado para ela. Até seus erros ela amava, até seus erros ela odiava.
Cath irrompendo o silêncio, mais uma vez, falou:
- Fim, Math?
- Podemos dizer apenas que vamos voar? que somos livres para voos?
Math perguntava a ela com um ar reflexivo e esperançoso.
- Não vejo asas, Math. Aliás, vejo uma ausência delas, agora.
- Não, Cath. Nem sempre é necessário ter asas para voar. Os maiores voos são feitos sem tirar o pé do chão...
Math deu um meio sorriso como a gente dá quando se lembra de algo bom, mas não pode transparecer completamente.
Longos escuros minutos de vento se debateram neles. Cath e suas lágrimas frias pegaram a trilha para descer a montanha.
Math estava em um estágio em que ele não sabia se havia visto ou não ela sair, mantinha-se imóvel, preferia acreditar na verdade inventada dele. Continuou ali até não enxergar nada além de estrelas que faiscavam e riscavam o céu como fogos de artifício.
Voaram, por fim. Silenciosamente alçaram o arrebatador voou que fora discutido na silenciosa conversa de suas almas durante muito tempo. Voaram...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Homem que é homem não compra guarda chuva


Homem que é homem mesmo não compra guarda chuva. Sai na cara braba naquela chuva de 100 milímetros por metro cúbico, corre daqui, corre dali, entra numa loja, num bar (aproveita e toma uma cervejinha) ou passa em um cobertinho qualquer que encontra por aí, mas guarda chuva, não compra não!
Aí chega o inverno com aquelas chuvas torrenciais que decidem cair do nada. Essa época, em especial, é muito complicada para essa parte da população que tem um membro viril cilíndrico e erétil no meio das pernas. É um corre-corre desgraçado, cabelo molhado e camisas/calças ensopadas. O quadro perdura por semanas... Até que um dia em que não está para peixe (quase um oceano se formando de tanta chuva), toda a masculinidade e opinião de anos (um ano, mais precisamente, contando desde a data do inverno anterior) são abaladas e um pedido emergencial do um guarda chuva aparece. 
Aí você já viu... É uma coisa linda! Um bando de marmanjos andando na rua com guarda chuvas róseos, com flores, com estampas afeminadas (quando não com um arco-íris) e com modelos de gueixa feitos de cetim, desfilando num espécie de Rain Fashion Week. Porque homem que é homem, não compra guarda chuva. Mas a esposa compra, a irmã compra, a mãe compra, a avó compra, a namorada compra, a noiva compra e nunca (jamais!!!) elas pensam que um dia aquela pessoa próxima com o cronograma Y ao invés do X irá fazer uso destas geringonças metálicas que insistem em se abir ao contrário por menor que seja o vento que ouse passar.
Entramos na questão da dependência masculina. Li algo de Martha Medeiros esses dias em que ela falava que os homens tem duas mães, quando não três: a mãe propriamente dita, a esposa (namorada, noiva ou qualquer coisa desse tipo) e às vezes ainda tem a avó, a tia ou a irmã para dar uma cuidadinha no moço. E o pior é que é verdade mesmo. Homens são feitos para depender das mulheres nessas coisas específicas, só pode:

- "amor, você comprou shampoo?"
- "você comprou fruta para a minha dieta?"
- "esqueci de tomar o remédio, não brigue comigo, pegue aí!"
- "aonde estão as meias, por Deus?" 
- "aonde você colocou aquelas camisas?"

 Pois bem, no alto da minha masculinidade e da dependência materna, também não comprei um guarda chuva. Fui destes que sempre que precisei, minha mãe tinha uma gurda chuva rosa pink prontinho para mim. Neblina + estalei o dedo = guarda chuva. Simples. Prático.
Sempre dava certo, até quando não queria utilizá-lo. Esperava cinco minutinhos, corria daqui, corria dali, pegava um ônibus ao invés de ir o trajeto a pé, ia de carona, chovia nos horários em que eu não saía, arrumava alguém para dividir um guarda-chuva comigo, entre outras estratégias que só quem não tem guarda chuva (ou tem um guarda chuva rosa pink e não quer usar) entende, mas nunca me molhava por completo.
Até que em uma belo dia de uma neblina rala e um atraso não tão ralo assim, saí de casa para a faculdade. Como naqueles clichês cinematográficos, a cada passo que eu dava mais pingos me fuzilavam. Parecia que tinha uma nuvenzinha diabólica em cima da minha cabeça. Um passo = 1 milímetro mais forte. Dez passos = 10 milímetros mais forte. 
Atenção para a parte de que: o destino foi cuidadoso ao pregar a peça: deixou que apenas na marca dos 100 passos e um quarteirão longe de casa (mesmo a forte chuva me molhando, minha testosterona me fazia resistir bruscamente), a chuva chegasse aos 100 e tantos milímetros. Mas não parou por aí, o único abrigo possível que exista estava a uns cem metros de distância do outro lado da avenida que se encontrava a todo movimento com o sinal verde. Sinceramente, parecia que um balde do tamanho daqueles que existem em parques aquáticos que derramam de meia em maia hora uns 10.000 litros de água por sobre os banhistas tinha decidido se derramar por sobre a minha cabeça.
Resultado? Um alto investimento de doze reais em um guarda chuva PRETO, cromado e reforçado. Guarda chuva de homem mesmo. 
SIM, homem que é homem prevenido compra guarda chuva.

"Mãe, foram muito bons os anos em que utilizei seu guarda chuva florido rosa pink, obrigado, de verdade. Consegui minha independência, comprei meu próprio guarda chuva."

Att: Rodolfo.